Futebol (ou Soccer)
Outro dia um acompanhei um amigo, com filhos pequenos, para ver o time de futebol (futebol mesmo, isto é, soccer) do colégio.
Bem, como sempre tudo muito bem organizado. Os garotos uniformizados, os reservas no banco, juízes e auxiliares também vestidos como manda o figurino.
O campo, uma beleza. O gramado perfeito, bem marcado. Muito melhor que qualquer campo que nossos Ronaldos usam por aí.
Há, ia me esquecendo. Cada time tem seu técnico e auxiliares técnicos para goleiro, defensores, meio-campistas e atacantes. E existem os times masculino e feminino porque não é por acaso que os Estados Unidos são campeões mundiais e olímpicos de futebol feminino. Nenhum país tem tantas jogadoras como aqui, onde o “soccer” é considerado (embora isto esteja começando a mudar um pouco) um esporte mais aconselhável para mulheres porque os homens, com H (de hestúpidos) jogam o futebol (deles) ou ainda melhor hóquei ou lacrosse (que são interessantes mas muito mais violentos).
Bem, mas estou fugindo do assunto.
Os dois times entram em campo aplaudidos. A platéia sentada nas arquibancadas ou em pé em volta do campo é formada por pais, amigos, irmãos, etc... É um compromisso quase que sagrado comparecer aos jogos que são realizados no sábado pela manhã. Quem não comparece não pode ser considerado um bom pai, ou mãe.
Bem, isto é uma longa discussão, mas é que estamos em uma região de classe média/média alta, próxima a Atlanta. E que é exatamente igual em suas atitudes e princípios a qualquer outra região de classe similar dos Estados Unidos (era exatamente assim quando morava em Pittsburgh).
Começa o jogo e dá logo para notar que apesar do treino e da aparência há mais esforçados que “futuros craques”. Não me entendam mal. A média não é das melhores porque todos jogam. A idéia é a participação. Há alguns garotos (ou garotas) muito bons de bola e que não fariam feio em lugar nenhum do mundo. Mas neste nível, da escola (que é o nível onde toda a iniciação esportiva acontece por aqui) a idéia é que todos possam participar.
E este espírito está também na platéia. Um garoto pega uma bola livre e corre em direção ao gol. Está sozinho e entrando na área mas tropeça na bola e cai. Eu faço uma cara feia, ouço alguns aplaudos e o jogo segue. Pouco depois alguém dá a bola novamente para o mesmo garoto. Ele “mata” na canela e a bola sai pela lateral. Ia começar a reclamar a reclamar quando vejo meu amigo (pai de um dos jogadores) aplaudindo o “perna-de-pau”, junto com quase todos os demais assistentes. Aí achei erradoi e reclamei:
- Pô, o que você tá aplaudindo cara! Isto é sacanagem. Tá certo que o garoto é muito ruim mas ficar de gozação é demais disse.
- Ih, você não entendeu nada me responde ele. O aplauso é para incentivar e fazer com que ele não desista. Você não está vendo que todos estão aplaudindo?
- Você quer dizer que ele vai continuar atrapalhando o time e ninguém vai reclamar?
- Não. Ele tem tanto direito como os outros de jogar.
- Mas ele é muito ruim. Não joga nada!
- Não interessa. Aqui o negócio é incentivar, é fazer com que todos participem.
E era verdade. Todos aplaudiam e, por mais estranho, pareciam sinceros.
O jogo foi correndo e um dos times logo começou a levar vantagem. Era, óbviamente, muito melhor que o outro. E 1x0, 2x0, 3x0 e 4x0. Aí o técnico mudou o time (que estava ganhando) e colocou alguns garotos ruins de bola “para equilibrar”.
-É que se a goleada for muito grande o jogo pára. Não pode. Os garotos ficariam desanimados, me explicaram.
É uma visão diferente da nossa. Não digo que melhor nem pior, só diferente. E nada melhor para evidenciar estas distinções que o fato ocorrido com este mesmo amigo, a quem encontrei algumas semanas depois. Ele havia passado alguns dias com seus filhos no Brasil e logo ao chegar levou os garotos para jogar uma pelada na praia.
- Ninguém conhecia ninguém e os times foram divididos na sorte mas, mesmo no Brasil nem todo mundo é bom de bola né? Um dos garotos então era uma calamidade. Só que na primeira vez que ele pegou na bola e fez uma besteira, eu me esqueci onde estava e aplaudí. Só que pegou meio mal. Todo mundo me olhou meio enviezado, achando que eu estava de gozação. Eu disfarcei, fingi que não havia acontecido nada e fiquei calado. O jogo continuou e logo depois o mesmo garoto faz outra bobagem. Um senhor, que pela idade deveria estar acompanhando o neto, não resistiu. Levantou-se e gritou “pô Tiago, será que você é cego? Vê se não dá mais a bola para aquele garoto. Ele é muito ruim pô”.

