Wednesday, January 05, 2005

Futebol (ou Soccer)

Outro dia um acompanhei um amigo, com filhos pequenos, para ver o time de futebol (futebol mesmo, isto é, soccer) do colégio.
Bem, como sempre tudo muito bem organizado. Os garotos uniformizados, os reservas no banco, juízes e auxiliares também vestidos como manda o figurino.
O campo, uma beleza. O gramado perfeito, bem marcado. Muito melhor que qualquer campo que nossos Ronaldos usam por aí.
Há, ia me esquecendo. Cada time tem seu técnico e auxiliares técnicos para goleiro, defensores, meio-campistas e atacantes. E existem os times masculino e feminino porque não é por acaso que os Estados Unidos são campeões mundiais e olímpicos de futebol feminino. Nenhum país tem tantas jogadoras como aqui, onde o “soccer” é considerado (embora isto esteja começando a mudar um pouco) um esporte mais aconselhável para mulheres porque os homens, com H (de hestúpidos) jogam o futebol (deles) ou ainda melhor hóquei ou lacrosse (que são interessantes mas muito mais violentos).
Bem, mas estou fugindo do assunto.
Os dois times entram em campo aplaudidos. A platéia sentada nas arquibancadas ou em pé em volta do campo é formada por pais, amigos, irmãos, etc... É um compromisso quase que sagrado comparecer aos jogos que são realizados no sábado pela manhã. Quem não comparece não pode ser considerado um bom pai, ou mãe.
Bem, isto é uma longa discussão, mas é que estamos em uma região de classe média/média alta, próxima a Atlanta. E que é exatamente igual em suas atitudes e princípios a qualquer outra região de classe similar dos Estados Unidos (era exatamente assim quando morava em Pittsburgh).
Começa o jogo e dá logo para notar que apesar do treino e da aparência há mais esforçados que “futuros craques”. Não me entendam mal. A média não é das melhores porque todos jogam. A idéia é a participação. Há alguns garotos (ou garotas) muito bons de bola e que não fariam feio em lugar nenhum do mundo. Mas neste nível, da escola (que é o nível onde toda a iniciação esportiva acontece por aqui) a idéia é que todos possam participar.
E este espírito está também na platéia. Um garoto pega uma bola livre e corre em direção ao gol. Está sozinho e entrando na área mas tropeça na bola e cai. Eu faço uma cara feia, ouço alguns aplaudos e o jogo segue. Pouco depois alguém dá a bola novamente para o mesmo garoto. Ele “mata” na canela e a bola sai pela lateral. Ia começar a reclamar a reclamar quando vejo meu amigo (pai de um dos jogadores) aplaudindo o “perna-de-pau”, junto com quase todos os demais assistentes. Aí achei erradoi e reclamei:
- Pô, o que você tá aplaudindo cara! Isto é sacanagem. Tá certo que o garoto é muito ruim mas ficar de gozação é demais disse.
- Ih, você não entendeu nada me responde ele. O aplauso é para incentivar e fazer com que ele não desista. Você não está vendo que todos estão aplaudindo?
- Você quer dizer que ele vai continuar atrapalhando o time e ninguém vai reclamar?
- Não. Ele tem tanto direito como os outros de jogar.
- Mas ele é muito ruim. Não joga nada!
- Não interessa. Aqui o negócio é incentivar, é fazer com que todos participem.
E era verdade. Todos aplaudiam e, por mais estranho, pareciam sinceros.
O jogo foi correndo e um dos times logo começou a levar vantagem. Era, óbviamente, muito melhor que o outro. E 1x0, 2x0, 3x0 e 4x0. Aí o técnico mudou o time (que estava ganhando) e colocou alguns garotos ruins de bola “para equilibrar”.
-É que se a goleada for muito grande o jogo pára. Não pode. Os garotos ficariam desanimados, me explicaram.
É uma visão diferente da nossa. Não digo que melhor nem pior, só diferente. E nada melhor para evidenciar estas distinções que o fato ocorrido com este mesmo amigo, a quem encontrei algumas semanas depois. Ele havia passado alguns dias com seus filhos no Brasil e logo ao chegar levou os garotos para jogar uma pelada na praia.
- Ninguém conhecia ninguém e os times foram divididos na sorte mas, mesmo no Brasil nem todo mundo é bom de bola né? Um dos garotos então era uma calamidade. Só que na primeira vez que ele pegou na bola e fez uma besteira, eu me esqueci onde estava e aplaudí. Só que pegou meio mal. Todo mundo me olhou meio enviezado, achando que eu estava de gozação. Eu disfarcei, fingi que não havia acontecido nada e fiquei calado. O jogo continuou e logo depois o mesmo garoto faz outra bobagem. Um senhor, que pela idade deveria estar acompanhando o neto, não resistiu. Levantou-se e gritou “pô Tiago, será que você é cego? Vê se não dá mais a bola para aquele garoto. Ele é muito ruim pô”.

SUBURBIA AMERICANA I

(escrita há cinco anos, em Pittsburgh, mas ainda válida...)

Há alguns anos mudei-me de armas e bagagens para os Estados Unidos. Depois de quase 50 anos de Zona Sul vim parar, por artes do destino, 30 milhas ao norte de Pittsburgh, morando a mais de 10 horas de carro da praia mais próxima, o que para mim é bastante estranho, mas também a mais de 100 horas da favela mais próxima, o que é mais estranho ainda para quem morara nos 13 últimos anos em São Conrado.

As coisas são realmente diferentes por aqui. Pobre é quem só tem um carro. Nas cercanias de Pittsburgh, que já foi a capital do aço (hoje somente as sedes das empresas estão por aqui) há, pelo que dizem, poucos sem-teto. Dizem. Eu, nunca vi nenhum. Aliás, depois de um inverno inteiro como o do ano passado - o pessoal por aqui diz que foi sopa – quando, durante três meses a temperatura máxima foi de 3 graus e a média foi de menos 5, é difícil acreditar que existam muitos "homeless" vivos na primavera.

Bem, como ia dizendo, as coisas por aqui são diferentes. Melhores ou piores, depende da perspectiva, mas diferentes. Por exemplo, com exceção das cidades grandes como Nova York, Los Angeles ou Chicago, os americanos, de engarrafamento, não entendem nada. Também nunca pegaram um Aterro ou uma Marginal em dia de chuva forte às 6 e meia da tarde. Em compensação outro dia eu fiquei parado uns 10 minutos quando ia para o trabalho. A razão: um reboque, com uma casa inteira, não estava conseguindo fazer uma curva e parou no meio da estrada. Quase que bateram no sujeito. Eu tive até que dar uma freada, coisa que é muito raro por aqui já no transito eles são muito disciplinados. Mas a raiva foi grande. Já pensou você chegar tarde para o trabalho e dizer que bateu numa casa que ia passando…

Apenas uma observação: foi difícil me conter para não passar pelo acostamento. Mas, como ninguém fazia isso e todos esperavam pacientemente pela solução do problema, resolvi ficar na minha. E foi bom porque logo apareceram dois ou três carros da polícia. Imaginem se eu tivesse me metido a engraçadinho. Estava preso até agora.

Por falar em transito, um exemplo admirável embora difícil de se tornar prático no Brasil, é o das escolas. Nos Estados Unidos os ônibus escolares são todos iguais, amarelos com letras pretas e têm portas dos dois lados. Quando eles param para pegar ou largar os alunos, "todos" mas "todos" os carros, dos dois lados da rua, param. Se não é cadeia. Além disso, cerca de 500 metros antes e depois das escolas, há um sinal luminoso que alerta, velocidade máxima 15 milhas (24 km/h). E isto durante a meia hora que antecede ao horário de entrada e na mais hora depois da saída. E todo mundo respeita.

Como vocês podem ver, as coisas são diferentes por aqui. Não é que eu tenha me tornado um "expert(o)" em Estados Unidos. Não. Aliás acho que nunca vou entendê-los completamente. Aliás, acho que vou. No dia em que entender como que aos 18 anos é mais fácil para um garoto comprar uma arma do que beber uma cervejinha com os amigos num bar (impossível). Quando eu entender isso vou realmente me considerar um entendido (ôpa !) em Estados Unidos e nos norte-americanos.