Há uns oito meses mais ou menos Michael Vick era o que pode chamar de uma história de sucesso anunciada. Famoso desde o High School, astro da Virgínia Tech University, profissionalizou-se em 2001 como o número 1 do draft (foi o primeiro a ser escolhido pelas equipes profissionais naquele ano) e desde então tem sido o quarterback do Atlanta Falcons, de futebol americano.
Considerado um dos melhores "atletas" do esporte por sua mobilidade, velocidade e força, era o “queridinho” de sua torcida, da maior parte da crônica esportiva e uma atração inegável onde quer que fosse jogar.
Por isso mesmo em 2004 assinou o maior contrato que algum jogador de futebol já assinou, a extensão por mais 10 anos de seu compromisso com os Falcons, num valor total de 130 milhões de dólares. Sua posição era tão firme que há alguns meses os Falcons não extenderam o contrato do seu reserva imediato, Matt Schwab, que sempre se destacara quando chamado a substituí-lo, porque seria muito caro manter um jogador de tanta qualidade na folha de pagamento. Mas nos falcons e com Vick por alí, ele seria apenas um reserva de luxo. Além disso, no futebol americano há um limite salarial (total) para cada equipe e mais alguém com salário alto comprometeria a posição dos Falcons.
Pois bem, isto tudo mudou: no momento Michael Vick é um pária nos Estados Unidos. Está suspenso “indefinidamente” pelo Commissioner do Futebol Americano, teve seu contrato terminado pelos Falcons, todos seus contratos publicitários desfeitos, responde a inquérito na polícia e aguarda o pronunciamento de um juiz para os próximos meses que deverá mandá-lo para a prisão.
A razão: depois de negativas e muitas alegações e testemunhos de “amigos” (nenhum tão forte como os testemunhos e alegações contra o Renan Calheiros mas assim é a vida não?) ele confessou ser o financiador de um empreendimento envolvendo brigas de cachorro (todos são, logicamente, “pit-bulls”), apostas nas disputas e de ter estado presente na ocasião em que cachorros (ruins de briga) foram mortos por não servirem mais.
Sem entrar no mérito legal (porque envolve leis estaduais e federais, incluindo apostas ilegais, crueldade com animais, mentira em depoimentos, etc...) o caso teve, obviamente uma repercussão enorme e o principal deles é a quantidade de dinheiro envolvida: Michael Vick poderá perder quase $150 milhões de dólares, a saber: US$ 71 milhões que ainda tinha a receber em seu contrato; US$ 22 milhões que os Falcons estão exigindo de volta do bônus de assinatura, alegando que o bônus era para 10 anos de contrato; cerca de US$ 50 milhões de diversos patrocínios (a Nike tinha um tênis Michael Vick, a sua camisa oficial, de número 7, feita pela Reebok, era uma das mais vendidas entre outros), valor calculado por diversas empresas de marketing, como seu potencial de ganho nos próximos anos; custos legais, etc.
No momento há vários sites de condenação a Michael Vick, alguns chegando a pedir a sua “morte”, o que no mínimo é curioso.
O mesmo pode ser dito da reação da NFL e dos Falcons. Nos últimos anos vários jogadores profissionais foram a julgamento pelos mais diversos motivos. Um dos motivos mais freqüentes era por baterem em suas mulheres. Um exemplo foi Michael Pittman, jogador do Tampa Bay Buccaneers. Há três anos foi preso por ter lançado seu Hummer, contra o carro de mulher e onde viajavam também seu filho de dois anos e uma babá. Foi o quarto incidente de violência doméstica de Pittmann. Pois bem, naquele ano – 2003 - nada aconteceu a Pittman, que jogou a temporada normalmente. Em 2004 confessou-se culpado de um delito grave (felony) e ficou 14 dias (quatorze dias, não meses) na prisão. Na volta foi suspenso pela NFL por três jogos sem salário e perdeu 500 mil dólares com isso. Seu técnico reclamou que a pena havia sido “excessiva”. Ele continua jogando normalmente.
Pois bem, indo ao site da NFL você pode comprar uma camisa do Michael Pittman. Ou uma camisa do Buffalo Bills com o nome do O.J. Simpson escrito nas costas. Ou uma do Carolina Panthers com o nome do Rae Carruth (que está na prisão cumprindo pena por envolvimento na morte de sua ex-mulher que estava grávida). Mas se você procurar uma camisa do Michael Vick não vai encontrá-la: sua comercialização foi suspensa pela Reebok e pela NFL
O Ray Lewis, do Baltimore Ravens, que em 2001 foi preso porque esteve presente a um duplo assassinato na saída de uma festa na véspera de Super Bowl (ele estava assistindo, não jogando) juntamente com dois amigos. Ray Lewis confessou-se culpado e foi condenado a um ano de prisão – sentença suspensa – por ocultação de provas. Seus dois “amigos” foram a julgamento e saíram inocentados. Até hoje ninguém foi preso pela morte dos dois. Lewis chegou a um acordo extrajudicial com a filha de um dos mortos que nasceu 15 dias depois do assassinato do pai. Quanto à NFL, multou-o em $250 mil dólares mas ele não foi nem suspenso e continua jogando normalmente. E é considerado um dos melhores senão o melhor jogador de defesa em atividade.
O Jamal Lewis, também do Baltimore Ravens (agora no Cleveland Browns) foi preso por ter confessado traficar cocaína. Foi preso por quatro meses (ao final da temporada de 2001 e antes da temporada de 2002 começar), suspenso por dois jogos pela NFL, perdeu cerca de 950 mil dólares em salários mas retornou ao Baltimore Ravens e agora joga no Cleveland Browns.
Apesar da (quase) unânime condenação do Michael Vick – os especialistas em marketing já disseram que para esta finalidade ele é um homem “morto”- o Stephon Marbury, hoje no New York Knicks, aquele que jogou fora a bicicleta do Leandrinho e deu-lhe um Cadillac, disse que a condenação tem motivações raciais porque na NFL há vários jogadores (brancos) celebrados e filmados ao passar as férias caçando e matando vários animais (o que é legal nos EUA, dependendo do animal). É verdade, mas é verdadeiro também que patos e veados são animais selvagens. É também que todos (patos, cachorros e veados) vivem e sofrem da mesma forma que os cães.
Agora o que é curioso é que ninguém sabe o que fazer com os mais de 50 pit-bulls encontrados no “sítio” de Vick. Por enquanto nenhum dos defensores de animais e que pedem em seus sites para transformar Michael Vick em ração para cachorro (existem vários sites assim) apareceu para ficar com unzinho que seja dos cachorros. O que até é compreensível: afinal um pit-bull normal já é um animal meio selvagem e imprevisível. Agora um pit-bull selecionado (eles matavam os mais calminhos) e treinado para matar só pode ir para um zoológico e mesmo assim tem que ficar longe da jaula dos leões. Para segurança dos leões......
Bem, isto acima foi escrito há uns dois meses. Agora saiu a sentença: Michael Vick foi condenado a 23 meses de prisão e já está cumprindo a pena numa prisão federal.
Apesar do fato de que ele havia feito um acordo com a promotoria para confessar-se culpado e com isso ter uma sentença de 12 a 18 meses, o juiz Henry E. Hudson aumentou-a porque descobriu-se mais tarde que ele participou diretamente da morte de dois animais e ainda acabou aceitando o fato de que mentiu ao negar haver sido pego num teste por fumar maconha.
No final das contas, na melhor das hipóteses, ao sair da prisão (ele pode ter a pena reduzida em 15% por bom comportamento) Michael Vick terá quase 30 anos e estará cerca de 100 milhões de dólares mais pobre do que estaria se nada houvesse ocorrido.
E é lógico que ele já confessou-se arrependido e desculpou-se com a "família, os filhos e os fãs por tê-los decepcionado". Se ele fosse uma dessas cantoras jovens e lourinhas, presas por envolverem-se em acidentes ao estarem sob a influência de álcool e drogas, já teria entrado em uma clínica de "reabilitação" para sair em uma ou duas semanas e fazer tudo de novo, até matar alguém num acidente.
Mas não Michael Vick. Em sua pena há uma parte que o proíbe de comprar, vender ou possuir cachorros pelos próximos três anos.
Eu continuo achando que a sentença, embora em acordo com a lei, fere o bom senso. É absolutamente ridícula.